quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O olhar

O menino chora, achando que perdeu da mãe. Que tanto de gente é essa na rua nessa hora do dia? Todos gritando, chorando, rindo, parece que o mundo enloqueceu. E onde está sua mãe?

O menino, sem poder resisitir à força da multidão, caminha em frente, limpando suas lágrimas com as mãos, olhando para os lados e gritando desesperadamente o nome da mãe. Uma das pessoas perto dele o levanta pelos braços. É um velho barbudo, que o olha preocupado.

- Você está perdido?

O menino só assente, fazendo um bico e parando de chorar um momento. O velho o senta nos seus ombros e lhe diz:

- Olhe se você consegue vê-la.

O menino começa a olhar, desde este novo ponto de vista, mas não consegue distinguir a mãe. Algo, no entanto, chama sua atenção. As pessoas abrem espaço para uma caravana passar. Ela é composta de soldados romanos, dos que o menino vê todos os dias e sonha com ser. Sua mãe o reprime, dizendo que os romanos são invasores do povo judeu, mas ele não se importa. O que não daria por ter uma armadura brilhante dessas...

Atrás dos soldados vem outro homem. Ele está banhado em sangue e camina com dificuldade. Atado a seus braços há um madeiro enorme e, aparentemente, muito pesado. O homem não parece ter forças suficientes para carregá-lo e, no entanto, o faz assim mesmo, passo a passo.

O menino esquece a mãe completamente, desce dos ombros do velho e corre para o homem. Precisa empurrar e chutar algumas pernas no seu caminho, mas por fim chega. De perto, os machucados são ainda piores. O cheiro é horrível, de sangue e sujeira e suor. Mas o menino se sente fascinado. Estica sua mão e consegue, por alguns segundos, encostar no homem. Ele se vira, o olha direto nos olhos e sorri.

Um soldado romano lhe dá um tapa na cara e grita para que se afaste. O menino cai na terra, sentado. Não chora. Só fica ali, onde caiu, olhando para o homem que se afasta cada vez mais, até não conseguir vê-lo, até todos terem passado, até ficar completamente sozinho.

Horas depois, o sol se põe, e uma mulher passa chorando pelo caminho. O menino, que não tinha se mexido, sai do seu trance, acordado pelos prantos da mulher. Reconhece sua mãe.

- Mãe, grita, mãe, estou aqui!

A mãe corre até ele, o abraça e lhe mete uns bons cascudos por ter se afastado dela.

- Mãe, o quê esse homem fez? Sabe, o que tudo mundo estava seguindo hoje?

- Não sei ao certo, filho. Eu acho que fomos nós os que fizemos alguma coisa...

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